Claudine Aune – Psicóloga e Psicanalista https://psiclaudineaune.com.br Claudine Aune – Psicóloga e Psicanalista Fri, 06 Mar 2026 20:08:33 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.4 https://psiclaudineaune.com.br/wp-content/uploads/2025/10/cropped-iconeclaudineaune-32x32.jpg Claudine Aune – Psicóloga e Psicanalista https://psiclaudineaune.com.br 32 32 Do burnout ao presenteísmo: cinismo, trabalho e adaptação https://psiclaudineaune.com.br/post/burnout-presenteismo-cinismo-trabalho/ https://psiclaudineaune.com.br/post/burnout-presenteismo-cinismo-trabalho/#respond Fri, 06 Mar 2026 20:07:20 +0000 https://psiclaudineaune.com.br/?p=1653 burnout

O burnout tem sido cada vez mais discutido nos últimos anos, especialmente nos campos da gestão, liderança e saúde ocupacional. Apesar da crescente atenção ao tema, muitas intervenções continuam focadas quase exclusivamente no indivíduo, enquanto os contextos e as condições de trabalho raramente são colocados em análise.

A partir da experiência clínica, é possível observar como esse recorte influencia a forma como o esgotamento profissional é compreendido e tratado dentro das organizações.

Como o burnout aparece nos primeiros relatos

Na clínica, é comum que as pessoas procurem ajuda depois do diagnóstico de burnout. O trabalho costuma aparecer cedo nos atendimentos, mas inicialmente ainda não se organiza como uma narrativa clara.

Nos primeiros relatos, surge com frequência a sensação de sobrecarga: prazos curtos, cobranças constantes e metas difíceis de alcançar. Essas demandas não parecem impossíveis à primeira vista, mas exigem sempre um pouco mais.

A impressão recorrente é que, com mais esforço, ainda será possível dar conta de tudo.

Esse processo raramente é vivido como uma decisão consciente. Quando a pessoa tenta localizar o momento em que algo começou a mudar, muitas vezes não consegue identificar exatamente quando o esgotamento começou.

A perda de interesse pelo trabalho

Antes da exaustão mais evidente, muitas pessoas relatam algo mais sutil: a perda de interesse pelo trabalho.

As tarefas continuam sendo realizadas, mas surge a sensação de distanciamento. O trabalho passa a parecer algo que poderia ser feito por qualquer pessoa, sem grande envolvimento pessoal.

Esse movimento costuma marcar uma mudança importante na relação com o trabalho.

Quando o problema não é apenas a carga de trabalho

Com o tempo, torna-se evidente que o problema não se resume apenas ao volume de tarefas.

Em muitos relatos de burnout no trabalho, aparece uma mudança no modo como as demandas se acumulam. Aquilo que começou como uma ajuda pontual ou uma disponibilidade eventual passa a ser incorporado silenciosamente como parte das responsabilidades.

O que antes era exceção vira rotina, muitas vezes sem discussão, reconhecimento ou redistribuição de responsabilidades.

Relações difíceis no ambiente de trabalho

Essas situações frequentemente vêm acompanhadas de relações profissionais desgastantes.

Chefias que cobram resultados elevados, mas oferecem pouca proteção institucional, são recorrentes nesses relatos. Ao questionar decisões, apontar problemas ou discordar de estratégias, muitos profissionais passam a experimentar:

  • isolamento dentro da equipe
  • perda de espaço nas decisões
  • avaliações negativas ou desvalorização do trabalho

Esse cenário contribui para o aumento do estresse ocupacional e do desgaste emocional.

O surgimento do cinismo como mecanismo de defesa

Nesse momento, a relação com o trabalho começa a mudar. Isso não significa necessariamente parar de produzir ou deixar de cumprir tarefas.

Muitas pessoas continuam presentes e funcionando. No entanto, algo do engajamento emocional se perde.

Na literatura sobre burnout, esse movimento é chamado de cinismo, não no sentido de ironia ou indiferença moral, mas como um distanciamento afetivo do trabalho.

Trata-se de uma forma de reduzir o investimento emocional para conseguir continuar funcionando. Esse distanciamento raramente surge porque a pessoa nunca se importou com o trabalho. Pelo contrário: ele aparece frequentemente depois de um período prolongado de forte dedicação e envolvimento.

Quando o pedido de ajuda surge

É nesse ponto que muitos pedidos de ajuda começam a aparecer.

Curiosamente, muitas pessoas não procuram atendimento com o objetivo de deixar o trabalho, mas sim de conseguir continuar nele. Buscam reduzir sintomas, recuperar energia e manter a capacidade de funcionar no ambiente profissional.

Nesses casos, a medicação muitas vezes aparece como um recurso para tornar essa permanência possível.

Nem sempre existem alternativas concretas. O trabalho sustenta compromissos financeiros, responsabilidades familiares e vínculos que não podem ser interrompidos facilmente. Nessas condições, adaptar-se parece a única opção viável.

Quando o problema é individualizado

É também nesse momento que ocorre um movimento bastante frequente: diante do adoecimento, o problema passa a ser localizado quase exclusivamente no indivíduo.

A narrativa costuma se deslocar para aspectos como:

  • falta de organização
  • dificuldade em lidar com pressão
  • suposta falta de resiliência

Com isso, as intervenções passam a focar quase exclusivamente na pessoa, enquanto o ambiente de trabalho permanece praticamente inquestionado.

Rever formas de cobrança, redistribuir responsabilidades ou criar estruturas reais de proteção no trabalho muitas vezes é visto como algo complexo ou caro demais, mesmo quando o custo do adoecimento contínuo raramente entra no cálculo organizacional.

Presenteísmo: quando o trabalhador permanece, mas esgotado

Quando essa estratégia de adaptação funciona, a pessoa permanece no trabalho.

Fisicamente presente, cumprindo o necessário, mas com engajamento reduzido. É nesse momento que surge o fenômeno conhecido como presenteísmo.

Do ponto de vista organizacional, ele costuma aparecer como queda de desempenho ou de produtividade. Do ponto de vista clínico, no entanto, pode ser entendido como uma tentativa de sobrevivência psíquica dentro de um contexto adverso.

O risco de ignorar o contexto de trabalho

O problema é que essa forma de adaptação raramente se sustenta indefinidamente.

O distanciamento emocional pode proteger por algum tempo, mas tende a empobrecer a experiência de trabalho e fragilizar os vínculos profissionais. Em muitos casos, ele prepara o terreno para um colapso posterior, quando o trabalho passa a ser vivido como algo que ameaça diretamente a saúde.

Por isso, enquanto o debate sobre burnout no trabalho permanecer centrado quase exclusivamente no indivíduo, existe o risco de continuar tratando efeitos como se fossem causas.

Rever contextos e estruturas organizacionais não é simples, mas ignorá-los tem se mostrado ainda mais custoso, tanto para as pessoas quanto para as próprias organizações.

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Inclusão de PCD nas empresas: o que é, quem pode se candidatar e por que o risco psicossocial precisa entrar na conversa https://psiclaudineaune.com.br/post/inclusao-de-pcd-nas-empresas/ https://psiclaudineaune.com.br/post/inclusao-de-pcd-nas-empresas/#respond Tue, 20 Jan 2026 10:17:00 +0000 https://psiclaudineaune.com.br/?p=1643 Inclusão de PCD nas empresas

A inclusão de PCD nas empresas avançou nos últimos anos, especialmente após o fortalecimento das políticas de diversidade e o cumprimento da Lei de Cotas. No entanto, cumprir a legislação não significa, necessariamente, garantir inclusão real e isso é amplamente reconhecido.

Muitas empresas abrem vagas, divulgam posições e formalmente atendem à Lei de Cotas, mas continuam encontrando dificuldades para atrair, integrar e reter profissionais PCD. O problema raramente está apenas na escassez de candidatos. Em muitos casos, a dificuldade está no ambiente que se oferece e em como esse ambiente é percebido, vivido e sustentado ao longo do tempo.

Inclusão de PCD nas empresas e os riscos psicossociais no trabalho

A ausência de acessibilidade, seja física, comunicacional ou organizacional, somada a práticas capacitistas sutis ou explícitas, como o questionamento recorrente das competências profissionais da pessoa com deficiência, atua como um importante fator de agravamento do risco psicossocial.

Esse tipo de contexto amplia níveis de estresse, exaustão emocional e cansaço crônico. Não se trata apenas de desconforto subjetivo. Os efeitos aparecem de forma consistente na autoestima, no engajamento, no bem-estar psíquico e, muitas vezes, na permanência desses profissionais nas organizações.

São riscos pouco visíveis, difíceis de mapear apenas por indicadores tradicionais, mas com impacto direto sobre afastamentos, rotatividade e adoecimento mental.

Adequação da vaga é uma decisão organizacional

Um equívoco frequente nas empresas é tratar a adequação da vaga como algo que pode ser resolvido exclusivamente por um laudo ou perícia. A perícia previdenciária tem finalidade específica e não avalia o contexto real de trabalho. A medicina do trabalho é fundamental, mas não atua isoladamente.

A definição de uma vaga adequada para uma Pessoa com Deficiência não pode ser reduzida a um “apto” ou “inapto”. Trata-se de uma responsabilidade organizacional que exige análise técnica interdisciplinar, considerando não apenas a condição de saúde do trabalhador, mas também as exigências reais da função, o ambiente, a organização do trabalho, as relações e os riscos psicossociais envolvidos.

Quando essa análise não é feita de forma integrada, o risco deixa de ser apenas operacional e passa a ser humano e organizacional.

Atrair, incluir e reter não são a mesma coisa

Um ponto pouco elaborado nas políticas de diversidade é a confusão entre atrair, incluir e reter Pessoas com Deficiência, como se tudo fizesse parte de um único movimento.

Atrair diz respeito à reputação do ambiente. Pessoas com Deficiência observam, antes mesmo de se candidatar, se aquela empresa comunica, formal ou informalmente, abertura para adaptações, respeito às diferenças e segurança psicológica. Muitas vagas não são ocupadas não porque não existam candidatos, mas porque o ambiente não convida.

Incluir começa após a contratação. É nesse momento que se testa, na prática, se o trabalho foi organizado de forma compatível com a pessoa que o ocupa. Incluir exige revisar exigências, ritmo, metas, relações com a liderança e condições cotidianas de trabalho. Sem isso, a inclusão se transforma em exposição e desgaste.

Reter, por fim, depende da capacidade da organização de cuidar continuamente dos riscos psicossociais envolvidos. Muitos profissionais PCD não saem por falta de competência, mas por exaustão emocional, microviolências recorrentes, isolamento ou ausência de reconhecimento. Quando esses sinais não são escutados, a evasão se torna previsível.

Lideranças como vetores de risco ou de proteção psicossocial

Entre a política institucional e a experiência cotidiana do trabalhador, a liderança direta ocupa um lugar decisivo. Gestores podem atuar como fatores de proteção psicossocial ou, ao contrário, como vetores de risco, especialmente no caso de Pessoas com Deficiência.

Na maior parte das situações, o problema não está na má-fé, mas no despreparo. Lideranças que não foram formadas para lidar com diferenças tendem a reproduzir cobranças padronizadas, leituras equivocadas de desempenho, silêncios diante do capacitismo da equipe ou exigências incompatíveis com a condição do trabalhador.

Esse despreparo, ainda que não intencional, produz efeitos concretos: aumento do estresse, isolamento, desgaste emocional e sensação permanente de inadequação. Por isso, a capacitação gerencial não pode ser tratada como um item acessório das políticas de diversidade. Ela é parte estruturante da inclusão e da prevenção de riscos psicossociais.

Sem lideranças preparadas, adaptações não se sustentam, a inclusão se fragiliza e a retenção se torna improvável.

Vagas abertas e ambientes pouco atrativos

Ambientes marcados por falta de adaptações razoáveis, lideranças despreparadas, assédio velado ou explícito, capacitismo institucional e exigências incompatíveis com a condição do trabalhador tendem a se tornar pouco atrativos para Pessoas com Deficiência, mesmo quando a vaga existe formalmente.

Há ainda um aspecto pouco considerado nas estratégias de inclusão: muitas pessoas elegíveis como PCD já estão dentro das organizações, mas optam por não se declarar. O motivo, na maioria das vezes, não é desconhecimento, mas medo. Medo do estigma, da desvalorização profissional, da limitação de oportunidades ou de passar a ser lida apenas pela deficiência.

Quando o ambiente não oferece segurança psicológica, declarar-se PCD pode ser vivido como um risco, não como um direito. Isso mantém talentos invisíveis, impede adaptações necessárias e amplia o desgaste emocional, transformando a inclusão em um custo subjetivo para quem deveria ser protegido por ela.

NR-1: saúde mental como eixo estruturante da inclusão

Nesse cenário, a NR-1 representa uma inflexão importante. Ao incorporar de forma explícita a saúde mental e o bem-estar no gerenciamento de riscos, ela amplia o olhar das empresas para além da segurança física e passa a considerar as condições psicossociais do trabalho.

Esse movimento cria um ambiente mais propício à inclusão de PCDs justamente porque enfrenta aquilo que historicamente ficou fora da equação: as barreiras relacionais, organizacionais e simbólicas que dificultam a integração e a permanência dessas pessoas.

Empresas que tratam a NR-1 de forma consistente, combatendo práticas capacitistas, prevenindo assédio e ajustando ambientes e funções, tendem a atrair e reter Pessoas com Deficiência de maneira mais sustentável. Nesses contextos, o cumprimento da Lei de Cotas deixa de ser um esforço forçado e passa a ocorrer de forma mais eficaz, ética e humana.

Inclusão exige gestão integrada, não soluções improvisadas

A inclusão sustentável de Pessoas com Deficiência depende de uma gestão integrada entre SST e RH, orientada pela NR-1. É essa articulação que permite identificar riscos psicossociais, ajustar expectativas, adaptar funções e preparar lideranças.

Incluir não é apenas abrir vagas.
É redesenhar o trabalho para que ele possa ser habitado por diferentes corpos, funcionamentos e modos de existir.

E quando esse processo é bem conduzido, os ganhos não se limitam às Pessoas com Deficiência. Eles se estendem à organização como um todo.

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Medo da Solidão e a Experiência da Solitude https://psiclaudineaune.com.br/post/solidao-e-solitude/ https://psiclaudineaune.com.br/post/solidao-e-solitude/#respond Tue, 04 Nov 2025 17:09:27 +0000 https://psiclaudineaune.com.br/2025/10/25/hello-world-2/ solidão e solitude

O medo da solidão acompanha muitos de nós. Nossa cultura costuma associar estar só ao isolamento, à ideia de fracasso, a um vazio que denuncia a incapacidade de conseguir companhia. Mas solidão e solitude não são a mesma coisa: a solidão se vive como ausência, a solitude é outra experiência, estar consigo mesmo, escutando, suportando o silêncio.

Em teoria sabemos que precisamos aprender a ficar sós, mas o desamparo nos assombra e fazemos de tudo para não entrar em contato com esse sentimento, que tem raízes na infância. No começo da vida descobrimos, de modo abrupto, que sozinhos não sobrevivemos, e esse choque deixa marcas: o desamparo aparece como fracasso, como se não fôssemos capazes de nos sustentar como indivíduos.

O abismo da solidão

A solidão pode se abrir como abismo, não apenas pela falta do outro, mas porque nos obriga a encarar partes de nós mesmos que evitamos: desejos, medos, conteúdos que parecem perigosos. Por isso tantas vezes nos agarramos a relações insuficientes, já esvaziadas, só para não enfrentar esse vazio.

O medo da solidão não é só de perder o outro, mas de encontrar a si mesmo.

Conexões sem intimidade

Com a internet, parece que temos uma infinidade de relações, mas quase todas sem intimidade real. Compartilhamos nossas angústias e até nosso desamparo, mas não dividimos de fato; o desejo de intimidade se confunde com a esperança de salvação, e o amor é terceirizado para um outro que nunca chega como se espera. Voltamos, então, sempre ao mesmo ponto: medo, dependência, vazio.

Quantas vezes ficamos em relações que já acabaram só para não encarar a possibilidade de estar só? É um medo que também tem preguiça, porque começar de novo dá trabalho, envolve incerteza, risco, a angústia de escolher e ser escolhido.

Alienação, separação e desejo

Na psicanálise falamos de alienação e separação. Alienação é quando me coloco como objeto da falta do outro, renunciando ao meu desejo; separação é aceitar que o outro tem um lugar próprio, diferente do meu, e que é dessa diferença que nasce o desejo.

A infância mostra isso de forma radical: o bebê descobre que não basta para a mãe, que ela olha para fora, que deseja outras coisas. É doloroso, mas é daí que surge nele a possibilidade de desejar também, de mover-se em direção ao mundo. Da falta nasce o desejo.

Quando adultos, ao sentir solidão, regredimos a esse estado infantil de desamparo, e quanto mais forte foi essa experiência lá atrás, seja pela ausência, pela depressão materna, pela negligência ou pela perda precoce, mais fundo será o buraco aberto pela solidão.

O trabalho da solitude

A solitude não é um jardim romântico. É exigente, atravessada por angústia, e por vezes se aproxima da ideia de morte. É difícil suportar o silêncio sem recorrer a distrações, mas é nesse espaço que pode surgir algo novo: intimidade, criação, desejo.

A análise pode ser um lugar para essa experiência, com sua escuta e seus silêncios, mas também a arte, a contemplação, a escrita, a escolha de um tempo menos saturado de estímulos.

Nossa cultura, no entanto, ensina cedo a fugir dos próprios afetos: engole o choro, não fale assim, não tenha inveja. Pequenas frases que nos educam a reprimir, e sem espaço para sentir crescemos tentando anestesiar aquilo que inevitavelmente retorna.

A solidão como questão social

Há um paradoxo que marca o presente: quanto mais redes usamos, mais solitários nos tornamos. Estudos mostram isso com clareza. A solidão não é só um problema individual, é também uma questão social e até de saúde pública. Pessoas solitárias tendem a viver menos, e a solidão aparece como uma forma de sofrimento próprio da contemporaneidade, ligada à hiperconexão, ao narcisismo, ao individualismo.

Conclusão

A solidão pode prender no desamparo, reabrindo feridas antigas e reforçando a sensação de fracasso que muitas vezes vem de relações passadas. É comum que o medo de ficar só não seja tanto da ausência do outro, mas do encontro consigo mesmo, com conteúdos que evitamos e que preferimos atribuir ao abandono ou à falta de amor.

A solitude, por sua vez, exige outro movimento: sair da posição de dificuldade, deixar de girar apenas em torno do fracasso e se arriscar a sustentar o próprio vazio. Esse é o trabalho mais difícil, porque significa entrar em contato com o que há de mais íntimo, sem garantias, sem terceirizar no outro a promessa de salvação.

Não se trata de uma receita nem de um ideal romântico. É um trabalho contínuo, incerto, que pede coragem para reconhecer o desamparo sem se reduzir a ele. Talvez seja aí, nesse espaço de risco, que a solidão possa se transformar em solitude, e que algo do desejo próprio finalmente encontre lugar.

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